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Filosofia e Psicologia

Viver no automático: "Ouro de Tolo", Kierkegaard, Heidegger e a ética do psicólogo

Por que dá para ter tudo e sentir que falta algo? Raul Seixas em 1973, a angústia em Kierkegaard, o "a gente" de Heidegger e a ética do psicólogo.

Por LUMENAR STUDIOAtualizado em 6 min de leitura
Capa: espiral dourada e verde sobre fundo noturno, com o título “Viver no automático”.
Assistir no YouTube: Viver no automático: "Ouro de Tolo", Kierkegaard, Heidegger e a ética do psicólogo▶ Assistir no YouTube

Dá para ter tudo o que disseram que você devia querer e ainda sentir que falta algo? Essa sensação de viver no piloto automático não foi inventada pelas redes sociais. Em 1973, um dos maiores nomes da música brasileira transformou esse incômodo em canção. A filosofia já tinha nome para ele, e a Psicologia fez disso clínica e ética. No fim, uma pergunta que fica com você.

"Ouro de Tolo" e o Raul de 1973

Segundo a Novabrasil FM, "Ouro de Tolo", do disco Krig-ha, Bandolo! (1973), é quase um retrato da fase que Raul Seixas vivia. Ele era produtor na gravadora CBS, ganhava 4 mil cruzeiros por mês e tinha um Corcel 73, o carro do momento. Tinha o pacote completo do sucesso e, em vez de paz, sentiu um incômodo enorme. (Aqui a gente conta a história; a letra fica com o artista, no link oficial.)

Ainda segundo a Novabrasil FM, em 1973, numa ação proposta por Paulo Coelho, Raul e os amigos saíram tocando a canção pelas ruas do Rio de Janeiro na hora do rush, com a imprensa convidada, para divulgar "Ouro de Tolo".

O "milagre" e o filtro brilhante

Entre 1968 e 1973, a economia brasileira cresceu perto de 10% ao ano, o chamado "milagre econômico". Segundo a Agência Brasil e o CPDOC/FGV, o crescimento veio com forte concentração de renda, e o poder de compra do salário mínimo caiu. A política da época costuma ser resumida como "crescer o bolo para depois dividir", frase atribuída ao então ministro Delfim Netto. Era como pôr um filtro brilhante na foto de um quarto bagunçado: o país crescia no papel, e a fatia não chegava para a maioria.

Obras da Ponte Rio-Niterói em 1971, com pilares no mar
Obras da Ponte Rio-Niterói, maio de 1971, uma das grandes obras do período do "milagre". Foto: autor desconhecido, domínio público, via Wikimedia Commons.
Trecho da Agência Brasil sobre a queda da fatia da renda dos 20% mais pobres
Trecho de Agência Brasil (2014), com dados do IBGE e do Dieese, com destaque da LUMENAR.

Kierkegaard: a vertigem da liberdade

No século 19, o filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard descreveu três formas de viver, que chamou de esferas: a estética, de quem corre atrás do prazer imediato e foge do tédio; a ética, de quem assume deveres; e a religiosa. Em O Conceito de Angústia (1844), ele trata a angústia como a vertigem da liberdade: o peso de perceber que a gente é o autor da própria vida.

Retrato desenhado de Søren Kierkegaard
Søren Kierkegaard (1813–1855). Retrato da Biblioteca Real da Dinamarca, domínio público, via Wikimedia Commons.
Trecho da Stanford Encyclopedia of Philosophy com a expressão anxiety is the dizziness of freedom
Trecho de Stanford Encyclopedia of Philosophy, “Søren Kierkegaard”, com destaque da LUMENAR. Em português: a angústia é a vertigem da liberdade.

Um cuidado importante: aqui "angústia" é um conceito filosófico sobre a condição de existir. Não é diagnóstico nem transtorno de ansiedade. Em A Doença para a Morte (1849), ele fala de desespero, também como conceito filosófico: a dificuldade de equilibrar o que somos de finito, com contas para pagar, e o que somos de possibilidade.

Heidegger: um registro necessário e o "a gente"

Antes das ideias, um fato: Martin Heidegger se filiou ao Partido Nazista em 1933, foi reitor da Universidade de Freiburg até 1934 e continuou filiado até o fim do regime. Estudar um conceito não é absolver o autor.

Em Ser e Tempo (1927), Heidegger descreve o ser humano como alguém que existe sempre no mundo, junto com os outros. E mostra como a gente foge para o impessoal, o "a gente": "por que você faz isso?", "ah, porque a gente faz assim". Ele descreve três modos desse automático: o falatório (repetir opinião sem pensar), a curiosidade que pula de novidade em novidade e a ambiguidade de fingir que já entendeu. Chamar isso de "inautêntico" não é xingamento: é o conforto de seguir a norma pública. O que tira a gente dali, para ele, é encarar a angústia e a finitude: o nosso tempo é limitado e não dá para terceirizar a própria vida.

Da filosofia ao consultório (e ao Brasil)

Essa filosofia virou prática clínica com os psiquiatras suíços Ludwig Binswanger e Medard Boss, na chamada Daseinsanalyse. No Brasil, ela chegou com o psiquiatra Solon Spanoudis, que fundou a Associação Brasileira de Daseinsanalyse em 1974. No consultório, não se debate Heidegger com o paciente: o trabalho é clarear a experiência de quem está ali, sem teoria fechada de cima para baixo.

O Código de Ética e dois dilemas

O Código de Ética Profissional do Psicólogo (Resolução CFP 010/2005) é rigoroso. O artigo 2º proíbe o psicólogo de induzir convicções políticas, religiosas ou morais (alínea b) e de oferecer técnicas que não sejam reconhecidas pela profissão (alínea f). Qualquer pessoa pode conferir o registro de um profissional no Cadastro Nacional do CFP.

Trecho do Código de Ética do psicólogo, artigo 2º, alínea b
Trecho de Código de Ética Profissional do Psicólogo (CFP, 2005), com destaque da LUMENAR.

Um artigo de Bataglia e Bortolanza (2012) ajuda a separar moral e ética: a moral pergunta "como devo agir?"; a ética pergunta "que vida eu quero viver?".

Dilema 1: seu psicólogo acha que o sistema econômico é o culpado pelo seu sofrimento. Ele pode usar a sessão para te convencer da visão política dele? Não: o artigo 2º, alínea b, proíbe.

Dilema 2: você conta algo difícil de ouvir, mas que não põe a vida de ninguém em risco. O psicólogo pode contar para a sua família? Não: o artigo 9º garante o sigilo, e o artigo 10 só admite quebrá-lo em situações extremas, buscando sempre o menor prejuízo.

Martín-Baró e a Psicologia na América Latina

No texto "O papel do psicólogo", o psicólogo Ignacio Martín-Baró defende que, num continente marcado pela desigualdade, o trabalho não é adaptar a pessoa a um sistema injusto. É ajudar a pessoa a ler o mundo, sem roubar o protagonismo dela, para que ela mesma possa mudar a própria realidade.

Qual é o ouro verdadeiro?

Juntando tudo: o ouro de tolo é o brilho da superfície, o "a gente" mandando comprar o Corcel para esconder a vertigem. Se isso é a vida no automático, qual seria o ouro verdadeiro? Fica a pergunta do episódio: se o seu piloto automático pausasse hoje, qual seria a sua primeira escolha de verdade?

Livros citados

Para quem quiser ir direto à fonte: O conceito de angústia (1844), de Søren Kierkegaard, editora Vozes (ver na Amazon), e A doença para a morte (1849), do mesmo autor, também da Vozes (ver na Amazon). Os dois também costumam estar nas bibliotecas públicas e universitárias. Ser e Tempo, de Martin Heidegger, citado aqui, fica sem link de compra.

Como participante do Programa de Associados da Amazon, sou remunerado pelas compras qualificadas efetuadas.

Música do episódio: "Ouro de Tolo", Raul Seixas (1973, disco Krig-ha, Bandolo!). Ouça no Spotify ou veja no canal oficial do Raul Seixas no YouTube.

Ouça a conversa completa no episódio 2 do Antena Ligada, no Spotify.

A LUMENAR é ponte, não autoridade: informação com fonte e link sempre à mostra. Este texto é informativo e não substitui atendimento, leitura ou livro. Se o vazio pesar, dá para conversar: CVV 188, 24 h, de graça. Tem também a UBS e o CAPS, do SUS.

Perguntas frequentes

Angústia, em Kierkegaard, é o mesmo que ansiedade?

Não. No texto, angústia é um conceito filosófico sobre a condição de existir, descrito em O Conceito de Angústia (1844). Não é diagnóstico nem transtorno de ansiedade.

O que Heidegger quis dizer com o "a gente" (das Man)?

É o impessoal: a norma pública que decide por nós, o "a gente faz assim". Em Ser e Tempo (1927), ele descreve três modos desse automático: o falatório, a curiosidade e a ambiguidade.

O psicólogo pode tentar convencer o paciente da visão política dele?

Não. O artigo 2º, alínea b, do Código de Ética Profissional do Psicólogo (Resolução CFP 010/2005) proíbe induzir convicções políticas, filosóficas, morais, ideológicas ou religiosas.

O psicólogo pode contar para a família o que ouviu na sessão?

Em regra, não. O artigo 9º do Código de Ética garante o sigilo, e o artigo 10 só admite a quebra em situações extremas, buscando o menor prejuízo.

Fontes

  1. Novabrasil FM, a história de "Ouro de Tolo"
  2. Agência Brasil (31/03/2014), Milagre para uns, crescimento da economia foi retrocesso para maioria
  3. CPDOC/FGV, Milagre econômico brasileiro
  4. Stanford Encyclopedia of Philosophy, Kierkegaard
  5. Stanford Encyclopedia of Philosophy, Heidegger
  6. Stanford Encyclopedia of Philosophy, Existentialism
  7. Daseinsanalyse e psicoterapia no Brasil (PePSIC, 2017)
  8. CFP, Código de Ética Profissional do Psicólogo (Res. 010/2005)
  9. CFP, Cadastro Nacional de Profissionais de Psicologia
  10. Bataglia & Bortolanza (2012), Formação profissional e conceitos de moral e ética em estudantes de psicologia
  11. Martín-Baró, O papel do psicólogo, Estudos de Psicologia (Natal), 1997
  12. "Ouro de Tolo", Raul Seixas, no Spotify
  13. "Ouro de Tolo", canal oficial do Raul Seixas (YouTube)
  14. Antena Ligada, Ep. 2, no Spotify

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