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Saúde

O CEP também adoece: por que o lugar onde você vive pesa na sua saúde

Determinantes sociais da saúde: 23 anos entre dois distritos de SP, o que diz a Lei 8.080, esgoto, clima e um disco de 1994 do Recife.

Por LUMENAR STUDIOAtualizado em 5 min de leitura
Capa: barras coloridas que descem degrau por degrau, representando o gradiente social da saúde.
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Na mesma cidade de São Paulo, a idade média ao morrer chegou a variar 23 anos de um distrito para outro. Seu endereço diz mais sobre a sua saúde do que o seu DNA? A pergunta é provocação, mas o dado não é. Este texto explica o que a saúde pública chama de determinantes sociais, ambientais e ecológicos da saúde, mostra o que a lei brasileira diz sobre isso e conta por que um disco de 1994, lá do Recife, já tinha feito esse diagnóstico.

23 anos e um CEP

Em 2019, a Prefeitura de São Paulo publicou um retrato da pessoa idosa na cidade (Informes Urbanos nº 37, da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano). Com dados de 2017, a idade média ao morrer chegou a 81,6 anos no Jardim Paulista e ficou em 58,4 anos na Cidade Tiradentes. O documento explica que as condições de vida, e também os homicídios, que atingem mais os jovens, puxam a média para baixo nos distritos da periferia.

Trecho da Prefeitura de São Paulo com a idade média ao morrer no Jardim Paulista e na Cidade Tiradentes
Trecho de Prefeitura de São Paulo, Informes Urbanos nº 37 (2019), com destaque da LUMENAR.

Um cuidado: "idade média ao morrer" não é o mesmo que "expectativa de vida". É a idade média das pessoas que morreram naquele distrito, num período. Mesmo assim, a diferença mostra que o lugar onde se vive pesa.

O nome disso: determinantes sociais da saúde

A Organização Mundial da Saúde define determinantes sociais da saúde como as condições em que as pessoas nascem, crescem, trabalham, vivem e envelhecem, e as forças mais amplas que moldam essas condições. Entram aí educação, comida de qualidade, moradia decente, condições de trabalho e as políticas econômicas.

A OMS também descreve um padrão, o gradiente social: quanto mais pobre a área onde a pessoa vive, menor a renda e menos anos de estudo, pior a saúde e menos anos saudáveis ela pode esperar. Não é uma divisão simples entre ricos e pobres. A saúde piora degrau por degrau.

Trecho da OMS em inglês sobre o gradiente social da saúde
Trecho de OMS, “Social determinants of health”, com destaque da LUMENAR. Em português: a saúde segue um gradiente social.

Está na lei do SUS

O Brasil escreveu isso na lei que organiza o SUS. O artigo 3º da Lei 8.080, de 1990, diz que os níveis de saúde expressam a organização social e econômica do país. E lista como determinantes e condicionantes a alimentação, a moradia, o saneamento básico, o meio ambiente, o trabalho, a renda, a educação, a atividade física, o transporte, o lazer e o acesso aos bens e serviços essenciais. Pela lei, saúde não é só hospital.

Trecho do artigo 3º da Lei 8.080 de 1990
Trecho de Lei nº 8.080/1990, art. 3º, com destaque da LUMENAR.

O modelo em camadas

Em 13 de março de 2006, o Brasil criou por decreto a Comissão Nacional sobre Determinantes Sociais da Saúde, e foi o primeiro país a ter uma comissão própria, depois da comissão da OMS. O relatório final, de 2008, usa o modelo de Dahlgren e Whitehead, desenhado em camadas. No centro estão a idade, o sexo e a genética de cada pessoa. Em volta, os comportamentos. Depois, as redes comunitárias e de apoio. Depois, as condições de vida e de trabalho, como moradia, comida, emprego, escola e serviços de saúde. Por fora de tudo, as condições econômicas, culturais e ambientais.

O prefácio do relatório resume a ideia central: os determinantes sociais são produto da ação humana e, por isso, podem e devem ser transformados pela ação humana.

O que está embaixo da rua (e no clima)

O ambiente também é determinante. Segundo o IBGE, no Censo 2022, 62,5% da população brasileira tinha coleta de esgoto por rede. A diferença entre regiões é grande: a coleta chegava a 22,8% da população no Norte e a 86,1% no Sudeste.

Rua de terra com esgoto correndo a céu aberto entre casas de tijolo
Esgoto a céu aberto na Cidade Estrutural, no Distrito Federal (recorte). Foto: Valter Campanato/Agência Brasil, CC BY 3.0 BR, via Wikimedia Commons.

E o clima entra na conta. A OMS estima que, entre 2030 e 2050, a mudança do clima deve causar cerca de 250 mil mortes a mais por ano, só por desnutrição, malária, diarreia e calor, e que esse peso cai mais sobre quem já é mais vulnerável.

Por que essa música

Em 1994, Chico Science & Nação Zumbi lançaram o disco Da Lama ao Caos. O encarte trazia um manifesto, "Caranguejos com cérebro", assinado por Chico Science e Fred Zero Quatro. Segundo o manifesto, o Recife tinha sido apontado por um instituto de estudos populacionais de Washington como a quarta pior cidade do mundo para se viver, com desemprego alto e mais da metade da população morando em favelas e alagados. O disco nasce, portanto, de um diagnóstico do que a saúde pública chama de determinantes sociais.

Vista aérea de manguezal cortado por viadutos, com prédios altos ao fundo, no Recife
Parque dos Manguezais e prédios de Boa Viagem, no Recife, em 2014: a cidade e o mangue lado a lado. Foto: Portal da Copa/Ministério do Esporte, CC BY 3.0 BR, via Wikimedia Commons.

A faixa 4, "A Cidade", faz esse retrato em quatro movimentos, que valem a escuta no áudio oficial. No começo, a cidade cresce em concreto, erguida pelo trabalho pesado e arriscado de quem constrói: são o trabalho e a moradia, os dois primeiros itens da lista da lei. Depois, todo mundo divide o mesmo espaço, patrão e trabalhador, rico e pobre, ambulante e trânsito: o mesmo mapa, com vidas muito diferentes. No refrão, o crescimento sem fim da cidade aparece junto com a distância cada vez maior entre quem está no topo e quem está na base, que é o gradiente social da OMS transformado em música. E no fecho a saída proposta é a cultura, misturar os ritmos da terra para sair da lama.

A ligação entre a música e a OMS é leitura nossa. Mas ela não está sozinha: um artigo acadêmico de 2024 usou justamente "A Cidade" para discutir desigualdade de classe e de raça no Recife de hoje, com dados oficiais.

Para levar

Seu CEP não é destino, mas pesa. E, pela lei brasileira, o que pesa sobre a saúde, como a casa, o esgoto, o trabalho e a escola, também é assunto de saúde.

Música do episódio: "A Cidade", Chico Science & Nação Zumbi (1994). Ouça no Spotify ou no áudio oficial no YouTube.

A LUMENAR é ponte, não autoridade: informação com fonte e link sempre à mostra. Este texto é informativo e não é orientação de saúde. Dúvidas sobre a sua saúde: UBS. Emergência: SAMU 192.

Perguntas frequentes

O que são determinantes sociais da saúde?

Segundo a OMS, são as condições em que as pessoas nascem, crescem, trabalham, vivem e envelhecem, e as forças mais amplas que moldam essas condições, como educação, alimentação, moradia, trabalho e políticas econômicas.

O que diz o artigo 3º da Lei 8.080?

Que os níveis de saúde expressam a organização social e econômica do país. A lei lista como determinantes e condicionantes a alimentação, a moradia, o saneamento básico, o meio ambiente, o trabalho, a renda, a educação, a atividade física, o transporte, o lazer e o acesso a bens e serviços essenciais.

Idade média ao morrer é o mesmo que expectativa de vida?

Não. A idade média ao morrer é a média de idade das pessoas que morreram num lugar e num período. A expectativa de vida é uma estimativa de quantos anos uma pessoa deve viver. A Prefeitura de São Paulo usa a idade média ao morrer para comparar os distritos.

O que é o modelo de Dahlgren e Whitehead?

É um desenho em camadas dos determinantes da saúde: no centro, idade, sexo e genética; depois, comportamentos; redes comunitárias e de apoio; condições de vida e de trabalho; e, por fora, as condições econômicas, culturais e ambientais. O relatório brasileiro de 2008 usou esse modelo.

Fontes

  1. Prefeitura de São Paulo (SMDU), Informes Urbanos nº 37: Retrato da pessoa idosa na cidade de São Paulo (2019)
  2. OMS, Social determinants of health (2025)
  3. Lei nº 8.080/1990 (Lei Orgânica da Saúde)
  4. CNDSS (2008), As causas sociais das iniquidades em saúde no Brasil
  5. IBGE, Censo 2022: características dos domicílios (esgotamento sanitário)
  6. OMS, Climate change and health (2023)
  7. ICAA/MFAH, manifesto "Caranguejos com cérebro" (1994)
  8. Teixeira & Ramos (2024), Chico Science, "A cidade", raça e pobreza

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