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Neurociência

Por que o cérebro descarta a decoreba (e 3 mitos que até professor acredita)

O que a ciência descreve sobre como a gente aprende, o rap de 1995 que já apontava o problema e três neuromitos que enganam até quem ensina.

Por LUMENAR STUDIOAtualizado em 5 min de leitura
Capa: rede de pontos ligados, lembrando neurônios e sinapses, ao lado do título.
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Você passou a noite estudando, foi bem na prova e, uma semana depois, não lembrava de quase nada. Não é defeito da sua memória: o cérebro fez exatamente o que tinha como fazer com aquilo. Este texto conta o que a ciência descreve sobre como a gente aprende, por que um rap de 1995 já apontava o problema e quais são os três mitos sobre o cérebro em que até quem ensina acredita. O terceiro engana quase todo mundo.

Aprender muda o cérebro, literalmente

A base aqui é o artigo "Neurociência e aprendizagem", publicado em 2023 na Revista Brasileira de Educação, revisado por pares e de acesso aberto. É uma revisão de literatura que junta o que se sabe sobre neuroplasticidade e cinco funções ligadas ao aprender: atenção, memória, motivação, emoções e funções executivas.

O ponto de partida é a neuroplasticidade. O que muda quando a gente aprende são as conexões entre os neurônios, as sinapses. Aprender cria e fortalece essas conexões; deixar de usar faz os circuitos empobrecerem. O artigo cita um princípio que resume bem a ideia: neurônios que disparam juntos se conectam.

Três desenhos em nanquim de camadas de neurônios do córtex humano
Desenhos de Santiago Ramón y Cajal (1852–1934) de camadas de neurônios do córtex humano. Domínio público, via Wikimedia Commons.

A memória que fica e a que evapora

Segundo o artigo, para uma informação virar memória de longo prazo ela passa por três processos. A repetição, que não é ler a mesma coisa dez vezes, e sim voltar ao assunto juntando algo novo. A elaboração, que é ligar o novo ao que já se sabe. E a consolidação, que torna o registro estável. O artigo lembra que o sono participa da consolidação, como se o cérebro passasse a limpo o que foi vivido durante o dia.

Trecho do artigo de Costa (2023) sobre os três processos da memória
Trecho de Costa (2023), Revista Brasileira de Educação, com destaque da LUMENAR.

É isso que explica a noite em claro: quem estuda só na véspera usa sobretudo a memória de curto prazo. Ela serve para a prova de amanhã e some depois. (Aqui a gente só conta o que o estudo descreve. Não é receita de estudo nem de sono.)

Atenção: multitarefa é alternância

Duas informações que usam o mesmo canal não são processadas ao mesmo tempo. O cérebro alterna entre elas, e as duas saem piores. O artigo também lembra que o sistema sensorial responde melhor a contraste do que a estímulo constante: por isso uma voz monótona por uma hora derruba qualquer um.

Emoção, motivação e o erro

Emoção e cognição não se separam. O estresse prolongado prejudica a aprendizagem. E a motivação que sustenta o estudo profundo é a que vem de dentro, apoiada em três ingredientes que o artigo cita: autonomia, domínio e propósito. Começar pelo porquê, pela pergunta, prepara o cérebro para o que vem.

O artigo também defende o valor do erro corrigido. Existe a ideia de que quem erra, corrige e acerta forma um circuito maior do que quem acerta de primeira, mas ela é uma hipótese do livro de onde vem, não um fato medido.

Um rapper chegou antes

Em 1995, Gabriel o Pensador lançou "Estudo Errado", um rap sobre a escola da decoreba. Em 2014, a BBC Brasil perguntou a ele o que pensava da escola vinte anos depois. A resposta parece resumo de artigo de neuroeducação.

Ele disse que a crítica da música era a distância entre o conteúdo das matérias e a vida real. O artigo de 2023 diz que, para uma informação ficar, ela precisa se ligar à vida real e ser retomada. Ele sugeriu transformar a escola a partir das dúvidas e da curiosidade dos alunos, que é o que o artigo chama de começar pelo porquê. E chamou o professor de "herói do dia a dia". O artigo diz que o professor não consegue forçar as conexões no cérebro do aluno, mas é quem cria as condições para elas.

E ele foi além do artigo. Disse que a solução da educação no Brasil é complexa, precisa de muita gente trabalhando sério e de verba que não seja desviada. O artigo fala pouco disso. Sem estrutura, turma menor e professor valorizado, não tem neurociência que dê conta sozinha.

O que os estudos citados mediram (e o que não mediram)

O artigo cita um estudo de 2017 (Hu e colegas) sobre sincronização entre cérebros. Ele foi feito em laboratório, com duplas numa tarefa de coordenação, medindo o fluxo de sangue no cérebro com luz infravermelha (fNIRS). Encontrou sintonia entre os cérebros da dupla, e essa sintonia acompanhou a vontade de ajudar o outro depois. O estudo não mediu aprendizagem em sala de aula.

O artigo também cita o estudo de Moffitt e colegas (2011), que acompanhou cerca de mil crianças da Nova Zelândia do nascimento aos 32 anos: o autocontrole medido na infância previu saúde, finanças e envolvimento com crime na vida adulta. É um estudo observacional. Mostra predição, não prova causa e efeito.

Três mitos que até professor acredita

Em 2012, Dekker e colegas perguntaram a 242 professores do Reino Unido e da Holanda sobre o cérebro. Eles concordaram com 49% dos mitos testados.

Tabela do estudo de Dekker e colegas (2012) com a concordância dos professores com os neuromitos
Trecho de Dekker et al. (2012), Frontiers in Psychology, com destaque da LUMENAR.

Mito 1: "Cada pessoa aprende melhor no seu estilo: visual, auditivo ou cinestésico." Concordaram 93% dos professores do Reino Unido e 96% dos da Holanda.

Mito 2: "Só usamos 10% do cérebro." Cerca de metade concordou (48% e 46%).

Mito 3, o que engana todo mundo: saber mais sobre cérebro protege contra mito. No estudo, foi o contrário: quem tinha mais conhecimento geral sobre o cérebro acreditou em mais mitos.

Por isso ficou famosa uma crítica de 1997, do pesquisador John Bruer: ir direto do laboratório para a sala de aula é "uma ponte longa demais". A ciência informa e ajuda a entender, mas não entrega uma receita pronta de como ensinar.

Para levar

Aprender não é encher o cérebro. É ligar uma coisa na outra. Não fica o que se decora: fica o que se conecta com a vida.

Ouça a conversa completa no episódio 3 do Antena Ligada, no Spotify.

Música do episódio: "Estudo Errado", Gabriel o Pensador (1995). Ouça no Spotify ou veja o clipe no canal oficial do artista no YouTube.

A LUMENAR é ponte, não autoridade: informação com fonte e link sempre à mostra. Este texto é informativo e não é orientação de estudo, de sono nem de saúde. Precisa conversar? CVV 188, 24 h, de graça. Tem também a UBS e o CAPS, do SUS.

Perguntas frequentes

Existe estilo de aprendizagem visual, auditivo ou cinestésico?

A ideia de que cada pessoa aprende melhor no "seu estilo" é um dos neuromitos mais comuns. No estudo de Dekker e colegas (2012), concordaram com ela 93% dos professores do Reino Unido e 96% dos da Holanda.

É verdade que só usamos 10% do cérebro?

Não. É um neuromito. No estudo de Dekker e colegas (2012), cerca de metade dos professores concordou com ele (48% e 46%).

Por que o que estudei na véspera some depois da prova?

Segundo a revisão de Costa (2023), quem estuda só na véspera usa sobretudo a memória de curto prazo, que serve para a prova e some depois. Para ficar, a informação passa por repetição com algo novo, elaboração e consolidação.

Fontes

  1. Costa (2023), Neurociência e aprendizagem, Revista Brasileira de Educação
  2. Dekker et al. (2012), Neuromyths in education, Frontiers in Psychology
  3. Bruer (1997), Education and the brain: a bridge too far, Educational Researcher
  4. Hu et al. (2017), Brain-to-brain synchronization across two persons predicts mutual prosociality, SCAN
  5. Moffitt et al. (2011), A gradient of childhood self-control predicts health, wealth, and public safety, PNAS
  6. Gabriel o Pensador à BBC Brasil, republicado pelo Terra (29/08/2014)
  7. "Estudo Errado", Gabriel o Pensador, no Spotify
  8. "Estudo Errado", clipe no canal oficial de Gabriel o Pensador (YouTube)
  9. Antena Ligada, Ep. 3, no Spotify

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