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Saúde

Infarto ou ansiedade? Por que a dor no peito não se decide em casa

Os sinais de infarto e de crise de pânico se confundem, e um não exclui o outro. O que dizem os estudos e como funcionam o SAMU 192, o CAPS e o CVV.

Por LUMENAR STUDIOAtualizado em 6 min de leitura
Capa: linha de eletrocardiograma estilizada ao lado do título “Infarto ou ansiedade?”.
Assistir no YouTube: Infarto ou ansiedade? Por que a dor no peito não se decide em casa▶ Assistir no YouTube

Uma dor aperta o peito, o coração dispara, falta ar. A primeira pergunta que vem é: é infarto ou é ansiedade? A resposta curta é que não dá para saber sozinho, em casa. Este texto mostra por que, com o que a ciência descreve e o que o SUS oferece.

Por que é tão difícil separar as duas coisas

O Ministério da Saúde descreve o infarto assim: dor ou desconforto no peito, que pode irradiar para as costas, o rosto ou o braço esquerdo, costuma ser intensa e prolongada, com sensação de peso ou aperto, e pode vir com suor frio, palidez, falta de ar e sensação de desmaio. Em idosos, a falta de ar pode ser o principal sintoma. Em idosos e em pessoas com diabetes, o infarto pode acontecer sem sinais específicos.

Trecho da página Infarto, do Ministério da Saúde, sobre os sinais da doença
Trecho de “Infarto”, Ministério da Saúde, com destaque da LUMENAR.

Agora compare com uma crise de pânico: coração disparado, aperto no peito, falta de ar, suor, tontura e a sensação de que algo muito grave está acontecendo. Boa parte da lista se repete. A Biblioteca Virtual em Saúde, do Ministério da Saúde, lembra que as crises de pânico duram em média de 15 a 30 minutos e que o diagnóstico do transtorno pode demorar justamente porque alguns sintomas físicos são confundidos com os do infarto. É por isso que tanta gente com crise de ansiedade chega ao pronto-socorro achando que está infartando, e é também por isso que ninguém deve apostar no contrário.

O que os estudos mostram

Uma análise da literatura publicada em 2003 na revista Psychosomatics, por Huffman e Pollack, estimou que até 25% das pessoas que chegam à emergência com dor no peito têm transtorno de pânico, e que a proporção é ainda maior entre quem procura ambulatório de cardiologia. Os autores observaram que o pânico era mais comum quando não havia doença coronariana, quando a dor era atípica, entre mulheres, entre pessoas mais jovens e entre quem relatava muita ansiedade. E fizeram um alerta: na maior parte das vezes, o pânico nesses pacientes nem chega a ser diagnosticado.

O médico de família David Katerndahl revisou o tema em 2004 e voltou a ele em 2008. Nas revisões, o único tipo de dor que aparece de forma consistente ligado ao pânico é a dor no peito "não anginosa", aquela que não tem o padrão típico da dor do coração. Quem tinha esse tipo de dor tinha cerca de duas vezes mais risco de ter transtorno de pânico.

Mas o ponto mais importante das revisões é outro: uma coisa não exclui a outra. O pânico aparece associado a fatores de risco do coração, como pressão alta e cigarro, e as duas condições podem existir na mesma pessoa. A dor durante uma crise de pânico pode, em alguns casos, vir de falta de oxigênio no músculo do coração. A conclusão de Katerndahl é que, quando uma das duas é reconhecida, vale investigar a outra.

Trecho do resumo de Katerndahl (2008) em inglês, recomendando investigar a outra condição quando uma é reconhecida
Trecho de Katerndahl (2008), Prim Care Companion J Clin Psychiatry, no PubMed Central, com destaque da LUMENAR. Em português: se uma das condições é reconhecida, vale procurar a outra.

Uma revisão sistemática de 2015 (Tully e colegas, na Psychological Medicine) juntou 12 estudos com mais de 1,1 milhão de pessoas e encontrou o transtorno de pânico associado a mais risco de doença coronariana e de infarto. E um estudo de 1998 (Fleet e colegas), feito com pessoas atendidas na emergência por dor no peito, encontrou transtorno de pânico em cerca de um terço dos pacientes que tinham doença coronariana e cuja dor, naquele atendimento, não foi explicada pelo coração. Esses trabalhos mostram associação, não causa e efeito: os próprios autores de 2015 dizem que não dá para descartar que a relação vá no sentido contrário.

Então, quem decide?

A equipe de saúde, com avaliação e exames. Não o Google, não o amigo, não a pessoa sozinha tentando adivinhar. A Linha de Cuidado da Ansiedade, do Ministério da Saúde, pede que problemas do coração sejam descartados antes de se falar em ansiedade. Para o Ministério da Saúde, diante de sinais de infarto, o caminho é ligar para o 192 ou procurar a emergência mais próxima.

Como funciona o SAMU 192. O serviço é do SUS, gratuito e funciona 24 horas, todos os dias. Quem atende primeiro é um técnico, que anota o endereço e o que está acontecendo. Depois a ligação passa para um médico regulador, que orienta quem está perto da pessoa e decide se manda uma ambulância e qual tipo. Dor no peito que começa de repente, suspeita de infarto ou AVC, problemas do coração e da respiração e acidentes com feridos estão entre os casos para chamar o SAMU. Febre que já dura dias, dor de dente e ida a consulta ou exame não são. Na suspeita de infarto, o Ministério da Saúde descreve a Linha de Cuidado do Infarto Agudo do Miocárdio: a equipe pode começar o tratamento já na ambulância, com trombolíticos quando necessário, e avisa o hospital antes de chegar.

Dois socorristas do SAMU 192 em frente a uma ambulância de suporte básico
Equipe e ambulância do SAMU 192, serviço gratuito do SUS, em Olinda (PE). Foto: Luiz Fabiano/Prefeitura de Olinda, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons.
Trecho da página do SAMU 192 explicando que as chamadas vão para o médico regulador
Trecho de “SAMU 192”, Ministério da Saúde, com destaque da LUMENAR.

UPA 24h. Funciona sem parar, todos os dias, e atende casos como falta de ar intensa e dor forte no peito.

E quando a crise é de ansiedade?

Descartar o problema no coração não significa que "não era nada". Crises de pânico que se repetem têm tratamento, e as revisões lembram que elas pesam na qualidade de vida e fazem a pessoa voltar muitas vezes ao pronto-socorro.

No SUS, a principal porta de entrada é a UBS, o postinho do bairro, para consulta e acompanhamento. Para sofrimento psíquico intenso existe o CAPS, o Centro de Atenção Psicossocial: segundo o Ministério da Saúde, não é preciso marcar consulta para o primeiro acolhimento, e também se chega por encaminhamento da UBS, da UPA ou do próprio SAMU. E, para conversar a qualquer hora, o CVV atende de graça pelo 188, 24 horas, e também por chat em cvv.org.br.

Trecho da página dos CAPS: não é preciso marcar consulta para o primeiro acolhimento
Trecho de “CAPS”, Ministério da Saúde, com destaque da LUMENAR.

Para levar

A dor no peito tem muitas causas, e ansiedade é uma delas. Mas ansiedade e coração podem andar juntos, e os sinais se confundem. Por isso, a pergunta "infarto ou ansiedade?" não é para ser respondida em casa: é para ser levada a quem pode examinar.

Música do episódio: "Frágil Coração", Rodrigo Alarcon (2020). Ouça no Spotify ou veja o clipe no canal oficial do artista no YouTube.

Ouça a conversa completa no episódio 1 do Antena Ligada, no Spotify: Infarto ou ansiedade?

A LUMENAR é ponte, não autoridade: informação com fonte e link sempre à mostra. Este texto é informativo e não substitui atendimento de saúde. Precisa conversar? CVV 188, 24 h, de graça.

Perguntas frequentes

Dá para diferenciar infarto de crise de ansiedade em casa?

Não com segurança. Os sintomas se parecem e as duas condições podem existir na mesma pessoa. Quem diferencia é a equipe de saúde, com avaliação e exames. Diante de sinais de infarto, o Ministério da Saúde orienta ligar para o SAMU 192 ou procurar a emergência mais próxima.

Quanto dura uma crise de pânico?

Segundo a Biblioteca Virtual em Saúde, do Ministério da Saúde, as crises duram em média de 15 a 30 minutos.

Quando chamar o SAMU 192?

Segundo o Ministério da Saúde, em casos como dor no peito de aparecimento súbito, suspeita de infarto ou AVC, problemas cardiorrespiratórios e acidentes com vítimas. A ligação é gratuita e o serviço funciona 24 horas, todos os dias.

Precisa marcar consulta para ir ao CAPS?

Não para o primeiro acolhimento. Segundo o Ministério da Saúde, os CAPS funcionam em regime de porta aberta. Também se chega por encaminhamento da UBS, da UPA ou do SAMU.

Fontes

  1. Ministério da Saúde, Infarto
  2. Ministério da Saúde, SAMU 192
  3. Ministério da Saúde, CAPS (Centros de Atenção Psicossocial)
  4. Ministério da Saúde, UPA 24h
  5. Secretaria da Saúde do RS, Atenção Básica (UBS), principal porta de entrada do SUS
  6. Biblioteca Virtual em Saúde (Ministério da Saúde), Transtorno do pânico
  7. Ministério da Saúde, Linha de Cuidado da Ansiedade
  8. Tully et al. (2015), Panic disorder and incident coronary heart disease, Psychological Medicine
  9. Fleet et al. (1998), Panic disorder in coronary artery disease patients with noncardiac chest pain, J Psychosom Res
  10. Katerndahl (2008), The association between panic disorder and coronary artery disease among primary care patients presenting with chest pain
  11. CVV, Centro de Valorização da Vida
  12. Huffman & Pollack (2003), Predicting panic disorder among patients with chest pain, Psychosomatics
  13. Katerndahl (2004), Panic & plaques, J Am Board Fam Pract
  14. Katerndahl (2008), Chest pain and its importance in patients with panic disorder, Prim Care Companion J Clin Psychiatry
  15. "Frágil Coração", Rodrigo Alarcon, no Spotify
  16. "Frágil Coração", clipe no canal oficial de Rodrigo Alarcon (YouTube)
  17. Antena Ligada, Ep. 1, no Spotify

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